segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

EU E ESSE MEU JEITO DE SER

Eu vim com dois defeitos de fábrica: um cérebro pensante e sentimentos pulsantes. Não sei a quem culpar por esse erro, mas eu vejo, sinto, percebo, falo, escuto e, portanto, penso e tento não me enganar. O defeito não é defeituoso para mim, mas para quem se aproxima e eu até entendo as queixas, deve ser mesmo muito complicado me tolerar. Eu não sei ver uma injustiça e fingir que não vi. Eu não consigo sentir ou perceber a real intenção de alguém e seguir o jogo. Eu não consigo perceber e enlouquecer pensando que não era nada disso, não sou capaz de me iludir para tornar real a ilusão preguiçosa de alguém. E isso incomoda. Eu incomodo. Incomodo, como me incomoda o mundo em que vivemos. Mundo que, às vezes, me dá nojo. E o pior de sentir nojo desse mundo no qual vivo é não poder sequer me dar ao luxo de vomitar: alguém seria capaz de me pedir para limpar!

REBOBINE, POR FAVOR!


Eu mantinha meu maior orgulho, a humildade. Essa voz rouca, essa vontade de sair. “De repente as coisas somem” ele disse. No início você duvida da frase, mas depois constata que isso acontece. De fato coisas somem. Os colegas somem, aquela vontade louca de viver a vida se esconde em meio as dúvidas e decepcões do mundo moderno. Aquela mania de rir adoidado, aquele amigo que virou namorado, o livro que foi autografado aonde foi parar? A vida leva da gente quem a gente deixa a vida levar. E eu que sempre confiei em conto de fadas, percebi que as fadas não te levam nas asas. (Continua).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Estou invisível, vivendo invisível anonimamente como todo ser invisível e anônimo, que não é anônimo para si mesmo. É inegável que sou importante para mim mesmo. Invisível no mundo de concreto. O mundo não é invisível. As cores saltam aos olhos. Voam, pulam como peixe na piracema, encantando os turistas.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

VAI QUE...

 Vai que o mundo desabe, justo hoje, sobre nossas cabeças desprotegidas. Um chapéu, então, flores e cores, decoração de jardins nessas nossas cabeças que, mesmo quando ocas, deitam no colo dos amores e pensam melhor. Pensam com afeto. Vamos logo pôr as roupas no varal, a comida no fogo; vamos preparar com antecedência os preparativos com hora marcada, aniquilando a certeza de que o tempo é o do relógio e conduzido pelos prendados. Vamos pregar uma peça no tempo, porque ele, meus caros, é um doido varrido. Merece um carnaval de horas desembestadas. E dá-me cá tua mão, então! Vamos cultivar um enlace, ainda que seja no susto, nos valendo do que Vinicius disse em seu poema: “eu te peço perdão por te amar de repente / embora o meu amor seja velha canção nos teus ouvidos”... E cantarolar sentimentos nessa antecipação romântica. Vamos endoidecer de vez de amor dos sinceros, que é para que o fim seja um começo dos mais inspirados; e tropecem os minutos diante dos beijos trocados, nos arrabaldes dos desfechos. Mesmo que engasgue, que o corpo trema numa dança desengonçada: diga. O que pertence ao teu sentimento, diga num repente, numa bossa, num rap, numa poesia. Desembuche que é pra não deixar as querenças interrompidas. Diga com a nudez oferecida pela urgência dos segundos. Vai que hoje esse mundo, numa receita sem medidas, faça de nós gatos e sapatos e nos ensine, na alegoria das suas idas e vindas, a superarmos o medo. E desabe sobre nossas cabeças as idéias, das que ao invés de pôr abaixo o mundo - e por serem nascidas no colo do afeto –, construam um tempo sem tempo para as declarações de amor, para as festas às sextas-feiras; para descansar o olhar no horizonte, para uma política mais justa, para a tolerância. E para as gargalhadas que, dizem por aí, fazem bem à saúde.  

DENTRO DE MIM,

Mallmix, on FlickR

Falar o quê? Melhor é ouvir o sussurro das coisas. Ou seus gritos. Bonito é tocar a vida de ouvido, ouvindo e fazendo som. Uma crônica não-crônica, aguda, ou grave gravidez sem gravidade... Vou condecorar pequenos feitos quase invisíveis às almas distraídas, porém tão importantes para o acontecimento que é a vida, feito frestas cuspindo luz, respingando esperanças na tela virgem da escuridão. E mesmo que ande por aí apalpando impossibilidades, hoje eu vou mergulhar em mim, mas de um jeito inédito, sem procurar pelo fôlego ao primeiro susto. Vou até o fundo de mim, tocarei meu chão, expandirei a compreensão que o mantém sendo quintal onde descanso e repenso os incômodos, até que eles partam de vez. E ao voltar à superfície de mim, prometo tratar com mais delicadeza a nossa existência: a minha, a sua, a dos outros. E enxergarei além, minha voz dirá sentimentos sem a rede de proteção da omissão. Para amanhã, programei algumas mudanças: janelas escancaradas, portas abertas, horizontes dependurados no olhar, andar de mãos dadas com o desapego, porque aquele sonho nunca foi sonho, mas sim prisão, já que desaconteceu, antes de sequer dar-se ao gosto do acontecimento. E vou encarar o reflexo de mim no espelho da desconstrução. E que a reconstrução seja passível de melhorias. Quem puder que suma do mapa, ainda que por alguns minutos, durante o dia. Abandone as senhas, deixe de lado os provedores e as dezenas de ligações aos SAC disso e daquilo outro. Sabe como diz a canção? “Era dia de feira/Era dia de ver e de provar/Era dia de estrelas no olhar”. Dia de provocar o riso, confundir noite com dia, porque tem lua no céu claro. De concluir projetos, como aquele engavetado por anos, que inclui, entre tantos tópicos de importância gritada pela logística e pelas estatísticas, um dos que mais nos apetece: confundir-se, vez ou outra, com a felicidade. Que o experimento seja capaz de nos levar além, e nos permita conhecer novos sabores, como o das tardes em que nos dedicamos a observar o que, em dias do diariamente, sequer percebemos. Ver e provar.

SE VOCÊ NÃO TEM FILHOS

Se você não tem filhos não sabe uma porção de coisas, mas ouve dizer. Só que tem outras que não te dizem e que vou te contar agora. São coisas pequeninas, quase que insignificantes, mas que somadas representam uma vida nova tão rica e abundante que chega a ser pesada. Porque é demasiadamente intensa e carregada a vida de quem tem filhos pequenos. Quando você os tiver, verá que por todos os lados terá sinais da infância transbordando na sua vida de adulta. Naquela sua sapatilha delicada, aquela toda feita à mão, que você queria usar numa tarde de shopping com as amigas — a tal tarde de shopping que nunca mais acontecerá, ou pelo menos não até seus filhos completarem 15 anos. Pois então, voltando à sapatilha que você foi buscar no armário e, quando colocar, notará que tem areia dentro dela. Areia, um bocado dela. “Ai, aquele dia no parquinho...”, se lembrará arrependida de uma tarde em que ia só dar uma passadinha no térreo, mas acabou sentando no tanque de areia e... bom, filhos pequenos... Se você não tem filho, deve estar sempre limpinha e asseada, não é? Aproveite porque, quando os tiver, aquela camisa branca ficará amarelada e, enquanto eles forem bebês, você sempre estará com cheiro de leite azedo, viverá as voltas com paninhos, tentando se limpar do vaivém de leite das mamadas de seu pequeno. E, também, quando você tiver filhos pequenos, uma noite qualquer, antes do banho, vai notar que tem massinha no seu sutiã, ou purpurina no seu queixo, ou, então, quando estiver naquele jantar chique do seu trabalho, vai perceber que esqueceu de esfregar a tatuagem de macaco que fizeram na sua mão naquela festinha a que levou os pimpolhos mais cedo. “Não, não é nada”, dirá sem graça, apoiando a outra mão sobre o rabo do macaco, quando lhe perguntarem o que você tem aí, logo abaixo do anel brilhante. Quando você tiver filhos, há de se tomar cuidado para nunca deixar a bolsa cair. Se por ventura acontecer no elevador do escritório de virar tudo no chão, siga meu conselho e não aceite ajuda. Guarde logo a cabeça da Barbie que estava dentro do zíper, corra para pegar a dentadura de vampiro, esconda rapidamente aquele final de pirulito que, a essa altura, já grudou nos lencinhos umedecidos e, por fim, se tiver bolinha de gude, torça para o elevador cair no poço e morrerem todos. Menos você, claro. Na sua casa, a decoração nunca mais será a mesma. A estante impecável terá, ao lado do porta-retratos de madrepérola, uns M&Ms melecados que você tentou esconder da sua filha e esqueceu ali. Periga ter uma fralda de cocô perdida num armário, e, certamente, pecinhas de encaixe irão ornar com o vaso de orquídeas na mesa de centro. Esqueça o sofá limpo, o cobertor claro, as paredes lisas. Sempre haverá um rastro de sorvete ou de mel pelos móveis, uns pedaços de mamão, um tanto de caos na sua vidinha, antes tão impecável. E acredite, ainda não tenho filhos, apenas um irmão caçula.