quarta-feira, 13 de julho de 2011

UM CARTA ESCRITA POR MIM, PRA MIM

Um dia, e não deve demorar muito, vou notar fios brancos no meu cabelo. Pior: um dia, vou procurar se restaram alguns fios preto no meu cabelo. Vou sentir algumas dores nas pernas, ou nas costas, ou a carga da vida será pesada para mim. E, se eu pudesse deixar um recado para essa mulher que eu serei então, eu pediria, talvez, para que ela fosse doce. Quando eu for velha, desejo manter alguma alegria. Ainda que a amargura me seja tentadora, que eu possa ver alguma beleza na vida. Que eu possa ver beleza em mim mesma, mesmo que meu rosto esteja amassado, os olhos um pouco apagados, que eu me lembre do quanto achava ridículo as mulheres lotadas de botox e não caia na armadilha de esticar-me toda para tentar ser aquilo que não preciso mais ser. Que eu me lembre desse tempo de hoje, e aceite essa outra forma de beleza, senão sem dores, com muita dignidade. Que eu tenha mãos firmes para passar base e, quiçá, delineador. Que eu saiba o valor e o momento de um bom perfume, de um bom penteado, de uma roupa bem cortada. Que eu não caia na tentação de vestir-me como uma velha ou – pior – que eu não caia no ridículo de usar roupas parecidas com as das minhas netas. Que eu não implique com a vida, com o tempo, com o meu companheiro. Aliás, se ele se tornar irritante, diabético, surdo ou o que quer que seja, desejo me lembrar das promessas antigas, do companheirismo de uma vida, das inúmeras vezes em que eu, jovem, fui irritante e surda, e ele esteve ao meu lado. Que eu possa relevar as frases repetidas, que eu tenha paciência para as pequenezas dele, e procure evitar as minhas. Que eu saiba rir da vida, de mim mesma, de nós dois. Mesmo que as piadas sejam péssimas; as gargalhadas não deveriam se tornar tão raras quanto as caminhadas ou as corridas. Que eu possa, ainda, fazer meu companheiro rir, mesmo que me dê uma preguiça danada. Que eu não cobre dos meus filhos, netos, amigos, mais do que eles me ofereçam. E que, em sendo oferecido pouco deles a mim, que isso não me amargure; mesmo que seja infinitamente injusto e cruel – e deve ser –, que eu tenha aceitação e alegria. Que eu tenha assunto e conhecimento, que eu tenha prazeres e encantamentos, sabedoria e discernimento. Que eu me mantenha lendo bastante, para que eu possa achar assunto nos jornais, nas revistas, nos novos e nos velhos livros. Se não me restar amigos, ou amores, que o conhecimento me salve de uma rotina infinitamente chata e comprida. Que eu aprenda a apreciar flores, comida, música, ou qualquer uma dessas coisas oferecidas em abundância pela vida, porque, assim, mesmo que me falte o resto, ainda terei o gosto ou o som do que me faz feliz. E, enfim, se eu pudesse deixar um último recado a essa velhinha que eu serei, eu pediria que ela lembrasse da menina que foi um dia e que fosse gentil com essa moça, com seus próprios erros, acertos, escorregadas e tentativas vãs. Que ela não fosse muito rígida com a vida, e nem com essa jovem abusada e tola que, um dia, sentou-se num jardim ensolarado para deixar-lhe uma pequena carta, cheia de palavras e idéias que, talvez, um dia, não façam, absolutamente, o menor sentido.


terça-feira, 12 de julho de 2011

CARÊNCIA

Do que careço é quem?, perguntou-me outro dia. E me lembro apenas da sensação de descortinamento da verdade que era desconhecimento até minutos atrás. Acredito que sim, recordo-me de pensar no silêncio que se estendeu pela espera de resposta. Mas não somente... balbuciou, sonolenta, a minha consciência. Quem não carece nessa vida, afinal? Há dias em que careço do sol esquentando as minhas costas, enquanto caminho rumo ao trabalho. Mas em outros, no quase sempre, careço mesmo da chuva tirando música do asfalto, enquanto eu cantarolo mudez, os pensamentos atiçados. Às vezes, careço de alguém arrancar de mim, aos berros, que seja, a certeza, essa armadilha que nos impede de perceber a volatilidade que adorna os acontecimentos. Não queria morrer de susto a cada certeza abocanhada pela mudança, só para renascer reticente no instante seguinte, magoada comigo mesma por não ter aprendido, na certeza anterior, lição tão importante. Porque certeza é coisa para fazer a gente doer. Careço do gosto agridoce da felicidade... Bobagem dizer que felicidade tem sabor de tutti-frutti! Felicidade é uma mistura inédita para um indivíduo único justamente porque cada um sendo cada um é possível se misturar e se adaptar e celebrar, através das diferenças, a capacidade de cultivar a igualdade.   Quando careço de tempo para respirar, escapo do dia vigente, horário comercial, um minuto que seja. Escondo-me onde for, fecho os olhos e sequestro um minuto de ausência minha dos lugares e cargos que me cabem. Inexisto para o mundo, durante este minuto, voltando pronta para dar continuidade ao meu papel de pessoa responsável por mim e pelos meus afazeres cotidianos. Tudo por que a vida, muitas vezes, faz com que nos falte o fôlego. Mas ela se defende, dizendo que é para que reconheçamos a importância do respirar. Careço da palavra sussurrada, das manhãs cinzas conduzidas à base de filmes e pipoca, da mão estendida à espera do cumprimento, dos discos que um dia foram imprescindíveis, não apenas colecionáveis. E chapéus... Sou pessoa apaixonada por chapéus e que raramente os usa. Careço de ser capaz de usar chapéus, de dançar nas ruas com meus chapéus coloridos. De ser a moça doida dos chapéus engraçados. Careço da presença que não me culpe pelas culpas que já reconheço em mim. E que ela saiba fazer café, porque ainda não sei viver sem. Um dia aprendo... Quem sabe. E de cortinas se abrindo no teatro, das telas de cinema, e de frases de efeito que só fazem efeito na gente quando ditas com o gosto bom do sentimento verdadeiro. Acontece de eu carecer de mim mesma, porque às vezes me desabito, saio de mim e nem me olho de fora, apenas me afasto e o mundo segue sem me perceber arredia, à beira da vida, simulando frieza que não sei sentir. E do que mais careço é da gentileza... Soubéssemos todos do poder de transformação que ela outorga, talvez, sem certeza mesmo... Talvez fosse possível vivermos o estar em paz com a vida que levamos. Careço dessa leveza... E da canção.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O VERDADEIRO AMOR É AQUELE QUE TE FAZ PENSAR


Muitas vezes as pessoas dizem "eu TE amo", mas, fora qualquer erro gramatical do que deveria ser um chato "amo-te", na verdade, estão dizendo "Eu ME amo". Eu TE amo porque ME reconheço em você, eu ME orgulho de você porque você tem o que eu ME orgulho em mim, eu TE admiro porque você é como o que ME admira em mim, eu TE acho inteligente porque você ME faz pensar o que já penso, eu TE acho legal porque ME acho também. Eu TE amo porque Eu ME amo em você. É tão fácil amar o espelho, apoiar o que é igual, concordar com quem vai ao encontro do que você pensa, admirar quem se assemelha a alguma parte de você. Amigos e amantes não dizem a mesma coisa juntos, isso é um coral. Amigos e amantes não se vestem da mesma forma, isso é um uniforme (ou falta de criatividade). Amigos e amantes não têm o mesmo objetivo para o país, isso é um partido político. Amigos e amantes não gostam das mesmas músicas, artistas, não têm o mesmo gosto cultural, isso é um fã-clube. Amigos e amantes não idolatram o outro, isso é religião. Amigos e amantes apenas se aceitam, se respeitam, se acrescentam com as diferenças e são felizes na presença do outro, de um outro não de uma extensão de si, e o nome disso é amor - ou maturidade, para quem não tem medo de ser mais do que se acostumou a ser. Eu TE amo porque é o que você ME desperta, por VOCÊ e não por mim.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

DOCE INVERNO - PARTE I

Viver é desfrutar do trabalho e do bem-viver, eu espero, desejo, quero. Mas de repente, tudo se me nega, não fujo, não sou do tipo de fugir.  O sol de inverno aquece docemente. Já não bate em meu peito amor por um mundo velho pleno de novas formas de comunicação. Já não sabem que existe um mundo invisível. Eu quero estar incomunicável para conversar com o Deus que eu criei. Falar e ouvir a mim mesma. Depois, reaprender a falar com o tom vocal que nunca se esquece. Não tenho pesados livros para carregar no caminho, nem chagas, nem mágoas. Não tenho janela pra rua, não ando por ai seminua. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Boa Noite, Ontem.


Nessa minha pequena vida eu só quero o amor. O peso do mundo é o amor. Peço agora que não nos pese tanto.  Onde ontem mesmo encontrei uma pessoa que me fez avaliar os anos. Sim, os anos se passaram feito água, mas essa é apenas uma marcação dos imensuráveis espaços entre o que vivemos. Viver e apenas viver, intensamente. Não se pode ser "mais ou menos" intensa e vendo aqueles olhos negros, penso que lês imediatamente nos meus olhos verdes. Por isso eu cá sou eu e você está onde está. Eu, não nada mudei. Continuo amando demais, onde o sol nunca se põe. Da minha maneira louca, inexplicável, irregular e simples. Do meu modo pequeno, de ser grande.  

quarta-feira, 8 de junho de 2011

PALAVRA AO TEMPO - FINAL

Deve ser quem descansa em meus braços, onde cabem todos os meus sonhos. Vejo seus olhos refletindo calma e mistério. Vejo-te descansando sobre mim e essa visão se encera na sua tranqüilidade enigmática. O que podemos ser além de nós mesmos? O que haveremos de fazer? Essa imagem figura como quadro mental de vidência ou realidade. Esse lugar do etéreo em que você se encontra. Talvez seja um gosto, um toque, uma fragrância talvez. Talvez seja esse olhar que se perde na brisa, e eu que perco em minhas próprias digressões. Não é uma surpresa não saber mais, não ter uma noção exata de tempo, da passagem das horas. A órbita em que vivemos. Não as prendo, deixo que as horas passem sem me aperceber do dia da noite do entardecer. Somente quando andar falar e comer, como somente para mover-me e me manter em movimento, mas sem saber o fim, senão o meio para atingir o pálido esboço de um novo fim. Como gaveta dentro de outra gaveta ad infinitum. Assim como eu, essa análise patológica acrescenta jus à minha biografia. O celibato, a fé, a temperança. Nesse mercado livre de sentimentos minhas alvas palavras voam soltas ignorantes dos limites da página do universo onde cada um escreve seu Deus, onde cada história se repete.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

DEIXA ESTAR, DEIXA EU SER


Dê-me licença de dizer, mas eu conheço esse olhar que se esgueira e que se perde dentro de si mesmo. Que me faz perquirir seu espírito vendo esse olhar que avança contra si mesmo, de improviso, conduzindo-a ao labirinto. Conheço de algum lugar as linhas que traçam esse rosto, a caixa dos sentimentos secretos. Que preza por sua dignidade quando o sol os ilumina. Conheço essa cegueira passageira de quem sai da escuridão-para-a-luz intensa irradiante. Quem não conhece? Deixe-me dizer, antes de recostar a cabeça sobre mais uma noite e o pretenso merecimento de mais um dia, que esse silêncio não durará para sempre. A voz intrínseca se externará como toda palavra que cala e toda mudez que silencia. Não faltarão perguntas, e hoje eu tenho que te dizer: aprendi todas as respostas.