Aprendi com a primavera a me deixar cortar. E a voltar sempre inteira.
"Era primavera e ela queria palavras só dela, para chamar de dela, para ser só dela, como aquele amor que ela pinta em tinta velha, esperando secar, com o raio de sol vindo pela janela. Na primavera, só ela, completa mais uma outra primavera. Faz mais um ano só dela, mais um ano de vida, dessa vida vivida, essa que é só dela. De presente queria um amor que a amasse, quando mudassem as estações e sem mudar de estação. Um amor sintonizado na frequência certa da estação do tempo dela. Ela cansou de amor de ar-condicionado, quer um amor de verdade, quer sentir frio, quer sentir calor, quer que seja de graça, sem precisar de manutenção. Quer um amor sob a condição de ser sincero até o fim. No lugar do amor, outro no outono, ela não quer, pois só com o amor dela tudo fica quente, como em um inverno com par. Mas se ela ainda não viu, eles verão, aquele amor dela, puro e eterno como também queria a velha prima Vera. Um amor só dela. Ela que plantou, regou, cuidou da sementinha, pondo nela todo o amor que ela tinha. Ela agora espera a flor, pois é chegada a primavera. Tudo então floresce, em um sentimento que não desabrocha, não se afrouxa. Aquele amor dela, pequeno e puro como um botão, agora há de se abrir. E quando cada pétala se abrir, se abrirá também a felicidade dela, a vida dela, o amor dela. Nessa estação em que os pássaros cantam, as flores cantam e o amor também canta, ela se encanta, com a promessa de enfim colher aos frutos. Ela não quer um mar de rosas, ela só aceita se for um oceano. Um oceano de rosas vermelhas, brancas, amarelas, rosáceas, com as cores que nunca se pintou. Tudo agora faz sentido, nada mais do que passou importa. Ela esquece o frio de um verão que não veio, suja as florestas limpas das folhas de um outono que não caiu, deixa de lado a inquietação aquecida, só por ela sentida, naquele inverno em que não ventou, não nevou. Agora é primavera. É ela quem faz primavera. E a vida, a estação e a alegria é só dela. Mesmo que não seja, ela sorri singela: é chegada a primavera!"
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